relato de parto , finalmente =P
Marina nasceu no dia 26 de novembro, às 7:03 da manhã.
As coisas não aconteceram exatamente do jeito que eu sonhava. Não conseguimos controlar a hipertensão que começou a aparecer nas últimas semanas de gestação e fiquei internada desde o dia 23, um domingo. Dependendo do andar da carruagem, o parto seria induzido naquela semana ainda. Na noite seguinte à internação, comecei a sentir algumas contrações irregulares e, na terça, a equipe resolveu induzir meu parto devido a suspeita de pré-eclampsia, já além da pressão arterial não estar baixando apesar do medicamento e do repouso, os exames laboratoriais estavam mostrando-se alterados. O resultado da proteinúria de 24 horas deste dia ainda não tinha chegado, apenas no dia seguinte ao parto esse resultado chegou e a proteinúria estava em 450, o máximo esperado para gestantes é 300. A pré-eclâmpsia se confirma com a associação de hipertensão + proteinúria, além de alterações em exames laboratorias como ácido úrico, creatinina, etc... esses não são exames que fecham diagnóstico, mas quando estão alterados, são indicativos que algo anda errado.
Enfim, conversamos sobre os métodos todos e optamos pela indução por sonda de Foley, um método não-farmacologico, que eu não conhecia (tinha pavor do famoso "sorinho" de ocitocina, queria passar longe dele). Normalmente, após introducao da sonda, o colo em 24h já está com dilatacao e o TP iniciando. Nossa surpresa foi que o TP iniciou 3h após a colocacao da sonda (na terça-feira, dia 25), o que nos fez acreditar que o TP estava engrenando desde os pródomos (contrações sem ritmo regular, pouco dolorosas) que tinha sentido na noite passada.
Liguei para a Dra Leila relatando contracoes ritmadas e ela foi lá pra me examinar, chegou lá por volta das 20h. E surpresa! O colo, que no inicio da tarde, tinha apenas 2 cms de dilataco, ja estava com 5 cm. Ficamos radiantes =) (gente, fiquei fã dessa tal de sonda de Foley... como o povo prefere enfiar as mulheres na ocitocina pra lascá-las de tanta dor, tendo opções não-farmacológicas e eficazes? E não dói n-a-d-a)
Aí a parte chata: ela fez um exame de proteinúria de fita na hora que chegou (que ela vê com o xixi daquele momento, faz-se o xixi num copinho e põe a fitinha lá dentro) e deu naquele momento positivo forte, 3 cruzes. O que confirmou o diagnostico temido: pre-eclampsia grave. A pressão também estava alta =/
Eu gelei nessa hora, medo elevado a vigésima potencia, sabe? Eu não sou leiga... sei que pré-eclâmpsia antecede a eclâmpsia propriamente dita, que se caracteriza pelo comprometimento neurológico. A vasoconstrição é tanta que a mãe convulsiona e o bebê corre sérios riscos. E se a PE era grave, significa que o negócio não estava bonito pro meu lado.
Mas eu estava com uma equipe maravilhosa, que me deixou confiante, engoli o medo. Engraçado que eu sou muito desconfiada, tudo que a médica anterior dizia, eu questionava e ia na internet tentar confirmar a "veracidade" das informações, mas eu desenvolvi uma confiança enorme em Dra. Leila. Eu tinha certeza que ela sabia o que estava fazendo, até pela vasta experiência dela na UTI Obstetrica do IMIP, então eclâmpsia e pré-eclâmpsia faz parte da rotina dela. E eu tava certa... depois dali, só me lembrei da pré-eclâmpsia de novo depois que Marina nasceu, quando foram colher sangue pra examas mais uma vez. A pré-eclampsia só atrapalhou o TP por uma razão: eu precisei ficar recebendo via endovenosa o sulfato de magnesio, atraves de uma bomba infusora, que fica ligada na tomada. O sulfato impede a evolução do quadro pra eclâmpsia, usei esse negócio até 24h depois de Marina nascer. Isso limitou bastante meus movimentos e idas ao banheiro, nao pude usar o chuveiro nem a banheira. Mas nem posso reclamar, aquele sulfato tava me mantendo bem. E, pelo menos, ainda me restava a bola de Pilates, rsrsrs =P
O TP ja engrenou com contracoes ritmadas de longa duracao e pouco intervalo, entao em pouco tempo elas ficam proximas demais uma da outra. Antes de eu pedir analgesia, Dra Leila disse que em casos de pre-eclampsia, o uso de analgesia é mais tolerado pra se manter os niveis de pressao. Ainda assim eu tentei nao pedir analgesia pelo maximo de tempo possivel, até porque eu tinha Aninha, minha doula, que com suas mãozinhas aliviava as dores das contrações, sem ela eu não teria aguentado tanto. Mas no meio da madrugada eu nao consegui evita-la, lembro que o espaco entre as contracoes era minimo. Nesse momento eu tava na cama pq tinha acabado de ser examinada e nao conseguia descer, tava doendo um bocado. Foi ai que pedi analgesia, de madrugada, acho que era umas 2 da manha. Estava com 7 cm de dilatacao a essa altura. Só faltam 3 \o/, eu pensava...
Estavamos no apartamento ate entao e fomos pro bloco cirurgico por causa da analgesia. Quando a analgesia comecou a fazer efeito, foi um alivio. As contracoes vinham (embora eu nao as sentisse, apenas visse) e eu nao tinha dor e tomei novo folego. Voltei pra bola, pulei que nem louca naquela bola. E quando as contracoes apareciam, eu fazia força. Nao sei se fiz certo, na verdade tava angustiada porque não sentia as contracoes e eu queria ajudar a nenem, fazia forca sem sentir realmente vontade de fazer. E era isso que eu fazia: força e tentava sincronizar respiração com contração. Enquanto isso, conversava com a equipe sobre os mais diversos assuntos, fofoquinhas e coisital, não tinha ninguém estressado do meu lado =)
O chato foi que a partir desse momento, o TP evoluiu pouco. Cheguei a 8 cm de dilatacao, mas a nenem tava super alta ainda. Continuamos nesse ritmo ate as umas 5:30 da manha: 8 cm e neném ainda lá em cima. Durante todo TP os batimentos fetais eram checados por sonar a cada 15 ou 20 minutos e a partir das 6h da manha, os BCF (batimentos cardiacos do bebê) comecaram a variar. Pouco depois, a equipe sugeriu a cesárea: nao pelos batimentos apenas, pq nao era uma bradicardia real e sim uma desaceleracao que era recuperada, mas pelo conjunto da situação: ela nao descia, faltava muito ainda (estávamos a umas 4 horas sem evolução) e a partir dali, pelo que entendi, ela podia bradicardizar de verdade, o que com a pré-eclâmpsia podia virar um problemão... Eu tava muito preocupada com os BCF dela, quando apareceu a desaceleracao fiquei muito tensa. Leila deixou claro que ela não estava em sofrimento, mas que como ela ainda tinha um longo caminho pela frente, as coisas podiam não ficar mais tão legais pra ela. Achei muito legal ela ter deixado claro que não havia sofrimento fetal ainda e nem ter falado na pré-eclâmpsia naquela hora. Um profissional desonesto teria falado essas duas palavrinhas logo e se poupado de passar horas partejando.
Nessa hora eu tava uma pilha de nervos, eu lembro de pouca coisa. Lembro que tava calada, falei muito pouco. Rezava pra ela descer... comecei a fazer forca, quis tentar mais uma vez antes de ir pra cirurgia... senti vontade de fazer coco, Leila ate se animou, pegou a laneterninha pra ver se via alguma coisa, mas era coco mesmo... =P Depois me arrependi de nao ter feito mais forca, de nao ter conseguido chorar ou gritar nessa hora pra estimular sua chegada. Eu descobri que não sou uma parturiente que grita, chora e fala palavrão... fiquei pasma com minha ladysse, preferia ser uma parturiente barraqueira, mas fazer o que? =P
Sei que por volta das 6:30, estava na mesa de cirurgia. Lembro que apesar de nao sentir dor, sentia a movimentacao na minha barriga pra tirar o nenem e era bem incomodo. As 7:03 Marina nasceu.
Comecou aí outra angustia: eu sabia que se estivesse tudo bem, ela viria logo pra mim. E ela nao veio, demorou um pouco. Aninha (minha doula querida) tava o tempo todo de maos dadas comigo e eu lembro de varias vezes ter perguntado a ela o que tava havendo que Marina nao aparecia. Nao sei quanto "muito tempo" foi esse. Mas ela veio, linda, com sua boquinha em forma de coracao... Depois eu soube ela nasceu com uma depressão respiratória, comum em bebês que nascem de cesárea. Foi preciso aspirar, estimular com o ambu... mas o apgar do 5o minuto foi 9, ou seja rapidamente se recuperou (o 1o apgar foi 6). A pediatra no dia seguinte confirmou que foi uma depressao respiratoria provocada pela cesarea mesmo (claro que alguns familiares acharam que foi devido ao trabalho de parto, pfffff, se matem). Nao amamentei na primeira hora, só a peguei depois de 2 horas que ela havia nascido, porque estava em observacao no bercario. Minha bebê foi recebida pela pediatra plantonista e essa é a conduta padrão do hospital =/
Bem... ela está com quase 20 dias de nascida, é uma fofa. Ela mama MUITO, estou amamentando sob livre demanda, entao é uma maratona, esse relato foi lentamente escrito entre mamadas, cochilos e algumas lágrimas. Não consigo lembrar do dia do nascimento dela sem chorar, e não é de tristeza. É a avalanche de sentimentos que chegam com o nascimento do bebê (alegria³³³³, ansiedade, medo) e um pouco de frustração por não ter conseguido parir minha filha, não posso negar. Quando Marina tiver maiorzinha, tento parir de novo... =P Sim, eu quero muito parir. Estranha, eu? Magina...=P
Agradecimentos:
Não posso deixar de agradecer a Ulisses, meu marido, por ter, desde o inicio me apoiado em todas as decisões que tomei. Só não pariu nem dá o peito por mim por incompatibilidade biológica mesmo.
Ao Ishtar, por ter sido meu apoio nos últimos meses. Esclarecendo, abraçando, apoiando... =)
Às irmãs Katz, Dra Leila e Ana (obstetra e doula) pelo excelente acompanhamento, apoio, confiança, competencia e amor pelo que fazem.
À Dra Leila e Dra Isabela (obstetras) por terem me permitido tentar até onde foi possível, mesmo diante das condicoes de saúde desfavoraveis, o que nenhuma outra equipe teria permitido. O esforço dessas moças (não esquecendo Dra. Brena e Dra. Melânia via DDD) pra Marina não nascer prematura foi lindo. Se ela pesou só 2,5 kg com 38 semanas, imaginem se tivesse nascido às 36 ou 37 semanas? Seria um espirro de gente e poderia ter muitas complicações respiratórias. Elas tiveram o timing certinho, induziram na hora que deveriam e interviram quando tiveram que intevir. Agradeco por terem me dado a chance de não ter sentido tanta dor no pós-cirurgico. Minhas plaquetas baixaram muito e nao pude usar os medicamentos que a mulherada usa pra ter aquelas recuperacoes de cesárea maravilhosas que a gente ve por aí. Doeu demais, acreditem. Mais um motivo pra se fazer parto normal em hipertensão/pré-eclâmpsia/sindrome hellp, mas aí vamos tirar dos obstetras suas desculpas favoritas, néam?
Às meninas da radicalândia da GPM (rsrsrs), pela grande ajuda no meu amadurecimento e empoderamento, que por sinal, ainda tem muito o que melhorar. Leila que o diga.... (Leila... não me dê tantas opções, rsrsrs. Disse isso tantas vezes a ela...=P)
À Deus, por ter me dado essa menininha linda e tanto leite pra suprir a bezerrice dela, rsrs =)
9 comentários:
relato maravilhoso, Binha! tô até emocionado, de verdade! =) espero que na próxima, se houver, você consiga ir até o fim no parto, mas agora o momento é de aproveitar essa coisa fofa que vocês têm nos braços!
Beijos!
Edson
ow, chinen, ce é um fofinho =*
Binha, apesar da distância, acompanhei sua gravidez de perto graças a esse blog, aliás, eu e minha família, pq sempre falei de vc aqui, o quanto te admiro, pela sua lucidez, maturidade e vc passou a ser uma referência pra mim. Sua cesárea não foi opcional e sim necessária, então NÃO SE CULPE nunca por isso. Graças a Deus sua pimpolha nasceu com saúde e assim como me emocionei em ver seu vídeo (q mostrei pra minha mãe, minha irmã, minha tia... rs), também me emocionei em ler esse seu relato. Vcs (Binha, Ulysses e Marina), são vitoriosos... Vc foi m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a e merece todo mérito por isso. Beijosssssss...
Tou com os olhos cheios d´água. Lindo relato, linda família, parabéns pelo empenho e por ter deixado Marina nascer no tempinho dela. Muito leite e muita felicidade! Beijo grande.
ow, meninas =~
Relato emocionante, Beta! To bestinha! Quero ser igual a tu qdo crescer, visse? :P Parabens por todo o esforco na tentativa de deixar a sabia natureza tomar conta da vidinha de sua pimpolha! Linda a sua atitude! Tb fico P da vida com a qtde de parto cesarea que tem aih no Brasil. Um absurdo! Fico passada!
Beijos nas duas,
Ju
Muito bonito...
Cada parto é uma história linda e emocionante. Parabéns pela sua neném ela é linda e merece toda a felecidade do mundo. Seu Natal vai ser maravilhoso e diferente.
Bom fim de semana,
Luciana
que bom que no fim deu tudo certo não é mesmo?? =D deus abençoe mt vcs!!!
Olá,
voltei pra desejar Boas Festas agora tudo de bom,dobrado!!!
bjs,
Luciana
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